01/07/2017 18h00 | Por: Natália Souza

A dança de Coco de Roda e sua tradição secular em Alagoas

Surgida em meados do século 17, em comunidades quilombolas, a dança de Coco de Roda teve seu primeiro festival em Alagoas neste ano.

Texto de: Natália Souza
Coco De Roda (Foto: Acervo História de Alagoas)

Neste ano de 2017, ano em que Alagoas completa 200 anos como ente federativo, o Governo do Estado realizou, em uma iniciativa inédita, o I Festival de Coco de Roda de Alagoas, no mês de junho, durante o São João 200 anos. 

Um marco à altura dessa dança que assim como outras e como os folguedos, já fazem parte da identidade alagoana. (Confira galeria de fotos do festival clicando aqui)

Muito estudada e debatida entre historiadores e pesquisadores, o Coco é uma dança cantada de origem negra-africana com batuques angola-conguense e possivelmente surgiu na zona fronteiriça de Alagoas e Pernambuco, num cordão de serras ocupadas no século XVII pelo célebre Quilombo dos Palmares. Dessa região espalhou-se por todo o Nordeste, onde recebeu nomes e formas coreográficas diferentes, também sendo conhecida como pagode e samba. 

22 grupos de coco de roda participaram do festival no Jaraguá. (Foto: Adaílson Calheiros)
22 grupos de coco de roda participaram do festival no Jaraguá.
Adaílson Calheiros

Segundo o pesquisador Abelardo Duarte, a provável origem do nome da dança vem do ofício de partir o coco, tarefa desempenhada em redutos como o famoso Quilombo dos Palmares. “A batida da pedra na casca do fruto ajudava a dar o ritmo e convidava à dança”, escreveu. 

“Outra tradição ligada à origem do Coco vem das comunidades rurais onde, após a construção das casas de pau-a-pique, era oferecida uma festa com o objetivo não só de comemorar o final da obra, como também de realizar o nivelamento do piso de barro através das pisadas do Coco”, aponta o pesquisador pernambucano Carlos da Fonte Filho. 

Já o historiador José Aloísio Vilela, no seu “O Coco Alagoano”, ainda vai mais longe e inclui uma influência indígena na dança do coco. “Incentivado pelo negro, herdando alguma coisa do índio, evoluindo e permanecendo, o coco chegou até nossos dias para ser hoje uma daquelas ‘especialidades Brasileiras’, de que já nos falou Sílvio Romero”.

Como se dança o Coco de Roda Alagoano

Sidnéia Tavares descreveu em “Danças Folclóricas Alagoanas”, a dinâmica da dança, que já sofreu diversas variações coreográficas e musicais desde o século 17. 

“A batida forte dos pés, também chamada de tropel, e o balançado do ganzá marcam o ritmo desse folguedo de origem afro-brasileira. O Coco pode ser dançado calçado ou descalço, e, aparentemente, não existe data exata para ser dançado, embora seja mais facilmente encontrado em junho, devido ao período festivo dos santos Antônio, João e Pedro”. 

Além de força nas pernas e nos pés, é preciso manter a cadência das palmas e do sapateado, o que exige destreza do dançador de coco. “Os integrantes desempenham funções, por isso há o mestre ou mestra (responsável por ‘puxar’ as cantigas), os demais cantadores e os dançadores. A chamada Roda de Adulto, originária das cirandas pernambucanas, funciona como entremeio do coco, ou seja, é apresentada quase sempre no intervalo deste folguedo, aponta o pesquisador José Maria Tenório Rocha.

Apresentações são caracterizadas por vestuários esvoaçantes e coloridos. (Foto: Adaílson Calheiros)
Apresentações são caracterizadas por vestuários esvoaçantes e coloridos.
Adaílson Calheiros

Em Alagoas há dezenas de grupos de coco de roda, que representam povoados e bairros dos seus respectivos municípios. O presidente da Liga Alagoana de Coco de Roda Roberto Calheiros de afirma que não é possível precisar quantos grupos há ao todo, visto que a maioria é informal, mas contabiliza que na capital alagoana há cerca de 20 grupos agregados à liga.

Os grupos participantes do festival foram:

Ganga Zumba (Cruz Das Almas) - Convidado

Xique Xique (Jacintinho)

Mandacaru (Clima Bom)

Paixão Nordestina (São Jorge)

Los Coquitos (Chã Da Jaqueira)

Rosa Vermelha (Boca da Mata) - Convidado

Catolé (Benedito Bentes)

Sensashow (Jacintinho)

Estrela de Alagoas (Bebedouro)

Pau de Arara (Tabuleiro)

Reis do Cangaço (Jacintinho) 

Raízes Nordestinas (Pescaria)

Flôr da Mata (Boca da Mata) - Convidado

Pisa na Fulô (Farol)

Leões de Fogo (Jacintinho)

Reviver (Bebedouro)

Águia de Fogo (Reginaldo)

Raro Xodó (São Jorge) 

Coco de Roda Pisa Miudinho (Melhor Idade) - Convidado

Coco de Roda Xodó Mirin (Jacintinho) – Convidado

Coco de Roda Balança Mas Não Cai (Arapiraca) – Convidado

Coco de Roda Arcoiris (Benedito Bentes) – Convidado

Mais informações você encontra em: Revista da Academia Alagoana de Letras, em dezembro de 1991, Ano VII, nº 7), Site da FMAC, Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas, Associação dos Folguedos Populares de Alagoas, ALmanaque200 de junho, Folguedos e Danças de Alagoas - José Maria Tenório Rocha, Maceió - 1984.